Uma reflexão sobre a estética de mesa japonesa, filosofias e consumismo

Para entender os fundamentos da estética de mesa japonesa é preciso entender sobre filosofia japonesa e entender a cultura. Continue lendo e entenda melhor.

Um breve resumo cultural

Após o final da segunda guerra mundial, o Japão passou por uma drástica e violenta inversão de valores e princípios.

Com a industrialização e a adesão de políticas econômicas liberais, o país se tornou um dos principais produtores e consumidores do mundo.

Atualmente, o consumismo desenfreado da sociedade moderna do Japão ainda encontra resistência com as tradições esquecidas por muitos jovens.

Esse conflito cultural gerou um problema silencioso. Muitas vezes, tratado como uma questão psicológica.

Uma linha imaginária entre a tradição e a vanguarda no Japão

Muitos japoneses, especialmente os mais velhos, tendem acumular muitos objetos antigos e tralhas que foram esquecidas há anos dentro de casa.

Além disso, muitos jovens também acumulam muitas coisas desnecessárias em casa.

Existe uma razão por trás desse fenômeno e não está necessariamente ligada a disposofobia (distúrbio comportamental conhecido como acumuladores compulsivos).

O consumismo do mundo moderno é caracterizado essencialmente pela rápida obsolência das coisas e costumes, ansiedade pelo novo e a velocidade na inovação e produção.

A milenar tradição japonesa não vê problemas na mudança e impermanência do mundo. Afinal, o budismo é a principal religião do país ao lado do shintô.

Mas, essa forma de consumo afasta os japoneses de suas raízes ancestrais. De acordo com o shintô, primeira religião do país, todas as coisas possuem espírito.

Então, tanto uma cumbuca, uma pedra, uma espada ou uma casa possuem um espírito próprio como um ser humano. Cada qual com sua natureza.

Por isso a cultura tradicional do Japão tem tanto apreço por trabalhos artesanais. Qualquer coisa produzida pelas mãos de uma pessoa tem uma história e um significado muito mais profundo, do que algo produzido em série por máquinas.

Mesmo que as máquinas tenham um espírito, como ensina o shintô, elas não possuem a capacidade de expressar a vastidão, a complexidade de sentimentos e emoções de um espírito humano.

Uma peça construída pelas mãos de um artesão carrega uma história de dedicação, esforço, sentimentos e emoções durante todo o processo. Afinal, esse é o real valor de um objeto na cultura do Japão.

Os 74 anos de ocupação e ocidentalização no país não foram capazes de apagar os costumes e tradições milenares do Tigre Asiático.

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Wabi-Sabi

A filosofia oriental normalmente é o oposto da cultura ocidental. Enquanto os padrões estadunidenses e europeus entendem a beleza das coisas por sua perfeição, o Japão entende na imperfeição.

É importante compreender que imperfeição não é um sinônimo de feio ou ruim. Afinal, a filosofia wabi-sabi ensina a aceitar e celebrar as imperfeições e transitoriedades da vida.

Além disso, um objeto (animado ou inanimado) antigo é carregado de histórias, marcas de vida e sentimentos. Elas demonstram que aquele espírito viveu e cumpriu sua função de sua natureza de forma digna.

Esse valor intrínseco na sociedade japonesa pode estar por trás do que se entende hoje por acumuladores compulsivos.

Afinal, o Japão pós segunda guerra mundial não é o mesmo do pré guerra mundial (e o tempo dessa ruptura é extremamente recente considerando toda a história do pais).

A estética de mesa japonesa

Comer é um ato sagrado em qualquer religião ou filosofia de vida. É um momento para nutrir a necessidade do corpo físico e como ensina o shintô, a comida também carrega um pouco do espírito do cozinheiro.

Por isso a estética de mesa é tão importante em refeições especiais e no cotidiano.

Cada peça deve ter sua própria característica. Seja qual for a escolha, é essencial que tenham sido realizadas manualmente em madeira, cerâmica ou qualquer outro material natural.

Dessa forma, a comida ganha um sentido e um sentimento diferenciado quando servido em um objeto com uma história própria. Um perfeito momento de contemplação onde os sabores, aromas, perfeições e imperfeições são celebradas na estética de mesa japonesa.

Além disso, boa parte da cultura filosófica japonesa trabalha com a noção de imaginação, Na cerimônia do chá, a parte principal é a interação dos convidados com o espaço vazio, um convite a imaginar o que poderia estar lá que ficaria perfeito.

Esse espírito filosófico percorre toda a cultura do Japão, inclusive, estética de mesa japonesa com todas as suas tradições.

Embora essa tradição esteja se perdendo devido ao ritmo de trabalho e de vida, você ainda pode encontrar essa rústica e apaixonante cultura em pequenas vilas afastadas.

Portanto, se você um dia você passar por essa experiência, vivencie-a no silêncio ensurdecedor da mente criativa, uma interação ativa dentro da passividade.

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Estética japonesa e filosofia

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