Como o bushido ajudou a forjar a sociedade japonesa

O período Edo (1603-1868) foi uma era muito importante para a história do Japão. Afinal, foi durante esse recorte histórico que o bushido ajudou a forjar a sociedade japonesa.

Embora o caminho do guerreiro (bushido) tenha nascido com os artistas marciais japoneses, esse código de conduta ética também foi introduzido para pessoas comuns.

Uma prova disso é que o período Edo, ainda que controlado com o pulso firme dos shoguns do clã Tokugawa, foi uma era de mais de 250 anos sem guerras e de relativa paz no Japão.

Além disso, houveram evoluções no conceito do que é o bushido em diversos tratados de artes marciais ao longo de todo o período.

Kōyō Gunkan

Koyo Gunkan

O termo bushido não esteve sempre presente na vida dos japoneses até o começo do século XVII.

A palavra era usada em atividades kyūba no michi (kyūjutsu, tiro com arco e flecha montado em cavalo).

Ganhou novo sentido dentro do Kōyō Gunkan, um compilado de 20 textos citando mais de 30 vezes o termo bushido em comportamentos específicos.

Esses textos foram amplamente divulgados e estudados pela classe guerreira do Japão. Além disso, serviu como uma espécie de manual de instruções para os bushi.

Contudo, o Kōyō Gunkan ainda era um texto de natureza militar. Portanto, enfatizava façanhas heroicas e criticavam aqueles que saíam do caminho militar.

Shoke no Hyojo

Esse trabalho de 1621 é o primeiro indicando qual deveria ser o comportamento do bushi dentro e fora do campo de batalha.

Originalmente o Shoke no Hyojo era composto por 20 pergaminhos. Em 1658 virou uma série de 20 livros.

Força de vontade

Porém, apesar de citar o bushido em diversas ocasiões, o conceito central da obra está no termo “Iji”, ou seja, força de vontade.

Ela deveria ser o alicerce de um bushi em não sucumbir a tentação das riquezas, da recompensa e da grandeza de poder.

Valores internos

De acordo com os textos, o guerreiro deve ser motivado por convicções pessoais e valores internos.

Virtudes do bushido

Além disso, a coleção considera como a essência do bushido as seguintes virtudes:

“Não minta, não seja dissimulado, não seja obsequioso, não seja superficial, não seja ganancioso, não seja rude, não seja arrogante, não seja orgulhoso, não calunie e não seja infiel.

Haja respeitosamente com seus companheiros, não se preocupe excessivamente, mostre preocupação com os outros, seja compassivo e com um forte senso de dever. Ser um bom samurai exige mais do que a vontade de dar a vida”.

Hagakure

Escrito por Yamamoto Tsunetomo em 1716, a obra Hagakure trouxe uma certa dificuldade de interpretação para muitas pessoas.

Isso porque o tratado possui um termo polêmico: “O caminho do guerreiro é a morte”. Essa ideia foi compreendida como uma insinuação a morte por muitas pessoas.

Consciência

Porém, o objetivo do autor era frisar que o bushi devia estar sempre consciente que a morte podia chegar a qualquer momento.

Transcender

E quando ciente e alerta para o único fato imutável da vida, seria possível transcender tanto a vida quanto a morte e cumprir com perfeição o caminho do guerreiro.

A obra também diz qual é a função de um bushi ao servir seu senhor. Embora a lealdade seja enfatizada como pilar de sustentação, o guerreiro não devia ser passivo.

De acordo com Tsunetomo, quando o governante sai do caminho virtuoso, o guerreiro deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para protestar e levar o clã a condução correta do povo.

Além disso, o tratado também afirmava que o bushido era uma autodisciplina.

Kashoki e Kokon Bushido Ezukushi

Apesar do bushido ser amplamente reconhecido pela classe guerreira japonesa, só isso não era o suficiente. Era preciso inspirar as pessoas comuns ao cultivo das virtudes pessoais.

Para isso, duas obras foram fundamentais para popularizar os valores bushido para as classes mais baixas do Japão.

Embora as obras sejam baseadas no conceito do bushido, foram desenvolvidas para pessoas comuns.

Então, o Kashoki foi escrito como folhetos de forma que qualquer pessoa alfabetizada pudesse ler e compreender seu sentido. Monges e mulheres costumavam ler para quem não sabia.

Virtudes

As principais virtudes pregadas pelo Kashoki eram: “não minta, não seja covarde e haja fielmente até o fim.

Já ao final do século XVII surgiu o Kokon Bushido Ezukushi, um livro ilustrado (considerado como percussor do ukiyo-e) de contos populares retratando os feitos heroicos dos samurais.

Cultura ética e moral

As duas obras foram um sucesso dentro do Japão. Os valores do bushido foram difundidos como uma nova cultura ética e moral para sociedade e para cada indivíduo.

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O bushi no período Edo

Período Edo

Apesar do bushi ser uma cria das artes marciais, seus princípios éticos e morais são aplicáveis para qualquer pessoa de qualquer ofício.

Além disso, durante o período Edo o Japão viveu um raro período de paz (a nível global). A classe guerreira, ou ao menos as castas mais inferiores, perderam função em uma sociedade pacificada.

Então, muitos samurais (não todos) viraram servidores públicos. Além de administrar e gerenciar, também se tornaram responsáveis por diversas funções no dia a dia dos japoneses.

Entre suas tarefas estavam a manutenção das vias públicas, como estradas e pontes, controle de inundações e irrigações, desenvolvimento agrícola, prontidão e recuperação de desastres naturais e fornecimento de remédios e cuidados médicos para a população.

De certa forma, o período de paz vivenciado no Japão durante a era Edo permitiu que esses valores éticos, morais e espirituais das virtudes do bushi pudessem ser transformados em uma cultura nacional para as pessoas comuns.

Ainda é possível verificar essas virtudes bushido muito presentes no cotidiano dos japoneses até os dias de hoje.

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